Odisséia
Enviado em 5 de Maio de 2008
Publicado por Studio Seasons | Enviar por e-mail
| Hits para esta publicação: 745
Mês passado fui convidada a participar de um programa de televisão aqui do Rio sobre mangá. O título deste artigo parece estranho, mas assim que o lerem vão entender bem o porquê do nome!
Aconteceu tudo muito rápido: recebi um telefonema de uma pessoa querendo informações sobre o curso de mangá. Assim que falei que eu era a professora, o cara do outro lado da linha se animou todo e acabou por me convidar para ser entrevistada num programa para jovens, feito ao vivo, que seria exibido numa terça-feira às 18:00h.
Acabei aceitando, e levei dois alunos meus a pedido da equipe de TV para que um ficasse desenhando e outro fazendo as vezes de fã.
Eu ainda tinha um fim-de-semana para preparar um material interessante com o intuito de fazer o público conhecer um pouco melhor esse gênero.
Tudo ótimo! Maravilhoso… até chegar na terça-feira! CAIU UM DILÚVIO! Chovia tanto que o guarda-chuva só servia para não molhar a cabeça porque o resto do corpo… e era chuva com vento!… Ahhhh! Meu guarda-chuva faleceu na ida! Na volta foi o funeral dele!
Para piorar, estávamos atrasados! O ônibus nos largou há quilômetros de onde queríamos estar!Resumo: chegamos faltando 20 minutos para a entrevista; estávamos descabelados, encharcados até os ossos e em cima da hora!
Corre aqui, corre ali, penteia cabelo no camarim, coloca maquiagem, seca blusa com secador de cabelos, troca a roupa dos garotos por outras, tudo isso em 15 minutos!!!! Saímos correndo para a sala de gravação faltando 3 minutos, despejei o material que tinha levado para mostrar numa mesa próxima e a contagem regressiva começou… três, dois, um… tá no ar!
Muita gente achou que eu estava nervosa, mas eu não estava! Estava elétrica de tanta correria! Era adrenalina mesmo!
Tinha muita coisa que eu gostaria de ter dito sobre mangás. Eu havia levado alguns para mostrar e queria falar algo sobre eles, foi aí que me dei conta que a apresentadora não sabia praticamente NADA do assunto! A gente tem sempre a sensação de que os apresentadores devem ter pelo menos uma base para poder questionar sobre um tema, mas não foi o que eu encontrei lá.
Pior que ainda dei um furo com o microfone. Que beleza! Quando o peguei para responder e não ouvi minha voz, achei que estivesse desligado! Hahahahahaha! Como estou acostumada com palestras, onde podemos ouvir a nossa voz nos alto-falantes, eu nem me toquei que o microfone lá era diferente. Foi por instinto ! XD
Essa mesma falta de costume foi o que pegou. Por quê? Oras, porque quando você dá uma palestra, normalmente prepara um material a ser exposto, certo? Vai preparado pra falar, mas para falar mesmo! Explicar com detalhes um tema, e lá a coisa foi bem diferente! Percebi depressa que na TV as respostas precisam ser curtinhas e objetivas e quando ela me cortou na primeira vez, eu vi que não ia dar muito certo. =P
Eu tinha a intenção de passar para as pessoas que não conhecem mangá o que ele realmente significa, mas do jeito que as perguntas foram formuladas, dar uma resposta curtinha era o mesmo que não falar nada!
Aí, ela fazia a pergunta, me vinha uma resposta enorme na cabeça e eu tinha de cortar na hora e ainda ter de passar alguma informação porque eu me recusava a ter ido lá só pra falar abobrinha! Sem mencionar que eu tive que me segurar para não corrigir a apresentadora! Se eu a corrigisse, corria o risco de ela me cortar numa boa e passar a palavra a outro entrevistado! Vocês não sabem como isso é desagradável! Ah, sim… as outras pessoas… eu não falei? Era um programa sobre mangá, mas eles pegaram tudo que tivesse alguma relação com o gênero - desse modo havia uma banda que tocava músicas de anime, um cara de cosplay e meus dois alunos… sem falar num cara fazendo grafitte numa parede (esse não estava lá pelo mangá, me disseram depois que é de praxe nesse programa sempre ter um grafiteiro) Conclusão: ela tinha de falar com todo mundo… num programa de uma hora! E eu achando que uma hora era muita coisa! =P
A pior parte foi quando a banda tocou Pegasus Fantasy e ela gritou na maior empolgação: “Narutooo!” Eu quis morrer….
Quando deu o primeiro intervalo, saí correndo para escolher algum mangá que eu pudesse mostrar e COMENTAR algo… - tentei mostrar uma página onde havia exercícios de matemática num mangá yonen que levei, mas a apresentadora, em sua correria habitual, acabou mostrando uma página de exercícios de escrita dizendo que era de matemática! Ahn…! Preciso dizer que ela não me deu tempo de corrigir!!!??? De avisar que aquilo não era matemática!? Eu juro que tentei, mas não deu! Ela foi falando por cima de mim e passou para outra pessoa!
No final da entrevista eu falava tudo correndo também!
Bem… foi interessante pela experiência.
Valeu como meio de informar as pessoas? Valeu para tirar dúvidas? Valeu para desfazer uma visão distorcida a respeito desse universo do mangá que rola por aí?
Não, infelizmente não valeu porque o que eu vi foi uma grande enrolação. Tudo bonitinho, transado, com cara de moderno e jovem, mas sem conteúdo algum porque, simplesmente, não há como essa informação ser passada de uma forma adequada num programa estruturado dessa maneira.
Confesso que fiquei um pouco chateada quando vi que o programa já estava terminando e que não falei nem 10 % do que gostaria de ter informado às pessoas. Pois é… uma pena! Acaba passando a impressão de que eles, no fundo, não estão realmente interessados em informar as pessoas. Fizeram um programa sobre mangá só porque está “na moda”.
Parece que os jovens não precisam estar informados, basta acharem o programa maneiro! Um bom programa não precisa se parecer com um telecurso; pode-se ser moderno, maneiro, atual, jovem e, ao mesmo tempo, informar e formar espectadores com opinião. Por que um programa voltado para jovens precisa ser tão vazio e superficial?
Não precisa e é essa visão que deve ser mudada!
Ahn? A minha volta!? Sim, uma outra odisséia, mas aí já é outra história. =P
Valeu, gente! ^________^
Sylvia Feer – desenhista.
“Narutooooo” ao som de Pegasus Fantasy foi o meu momento trash favorito aqui.
Mas a falta de base que você descreve é apavorante.